Um estudo, feito a partir da análise de prontuários médicos e documentação clínica de pacientes de Barra do Garças (519 km de Cuiabá), investigou danos oculares causados pela toxoplasmose. O trabalho, publicado na “Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene”, aponta que a falta de diretrizes que permitam a notificação dos casos, ignora seus efeitos e impede o atendimento clínico personalizado e a criação de diretrizes nacionais para o gerenciamento da doença.
O artigo foi escrito por Alecsander Fabricio Moreira Bressan, docente do curso de medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Fernanda Regina Casagrande Giachini Vitorino, docente da UFMT no Câmpus do Araguaia, Ana Paula Salamoni, oftalmologista em Barra do Garças, e Kelly Clair de Moura da Costa, doutoranda em Ciências Biológicas na Universalidade Federal de Goiás (UFG).
Segundo os autores, o estudo foi motivado por relatos de médicos oftalmologistas que trabalham na região estudada sobre a incidência de consequências oculares em pacientes que até então não havia sido testado como portadores de anticorpos para o protozoário da toxoplasmose, indicando alguma deficiência de diagnóstico anterior e a dificuldade em encontrar dados epidemiológicos sobre a incidência de consequências oculares em pacientes com anticorpos para o protozoário da toxoplasmose, indicando que notificação das consequências oculares não é um critério que abrange a notificação compulsória.
Ainda segundo os autores, a toxoplasmose não está incluída no grupo de doenças tropicais negligenciadas, mas existem dados, que citam fatores da vulnerabilidade social como risco para sua maior incidência. “Ademais, o Ministério da Saúde articula, desde 2015, uma vigilância integrada a secretarias e outras instituições, da toxoplasmose gestacional, congênita e adquirida em surtos. Os casos isolados da doença não são de notificação compulsória“.
O estudo, realizado entre março de 2020 e março de 2023, contou com a análise de prontuários de 850 pacientes. Deste total, 72 apresentaram lesões oculares compatíveis às causadas pela toxoplasmose e 64, após exames, tiveram o quadro confirmado.
“Considerou-se a região altamente endêmica porque os resultados de nosso trabalho comparado ao número obtido por notificação compulsória na região estudada esteve consideravelmente maior, mas é importante deixar claro, que a comparação foi feita para os casos congênitos e gestacionais, se houvesse registros anteriores de dados de acometimento ocular na mesma região ou mesmo um registro a nível nacional a comparação seria mais apropriada. E isso reforça a originalidade do estudo”, explicam os autores, através da assessoria de comunicação da universidade.
A conclusão do trabalho aponta que descobertas realizadas são obscurecidas pelas diretrizes nacionais. Os autores explicam que isso acontece porque a legislação atual de notificação e agravos do Sistema Único de Saúde (SUS), contempla os casos congênitos e gestacionais da toxoplasmose adquirida em surtos e não engloba o registro de consequências oculares, dificultando o acesso informação epidemiológica no contexto oftalmológico da doença.
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